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A rede de dormir

A rede de dormir figura entre as mais antigas invenções da cultura material dos povos originários da América tropical, especialmente de grupos pertencentes aos troncos culturais aruaque e caribe, que habitavam extensas regiões da Amazônia e do litoral sul-americano antes da chegada dos europeus.

Criada para atender às condições ambientais das florestas tropicais, tornou-se instrumento de repouso e proteção.

Os primeiros exemplares eram produzidos com fibras vegetais, como cipós, lianas e fibras de palmeiras.

Posteriormente passaram a ser produzidos também com algodão fiado, material abundante em diversas regiões da América do Sul. Suspensa entre árvores ou esteios das habitações, a rede permitia dormir afastado do solo úmido, protegendo o corpo contra insetos, animais rasteiros e a umidade do chão. Sua leveza facilitava o transporte durante deslocamentos pelas matas e rios.

O primeiro registro escrito da rede no Brasil aparece na Carta de Pero Vaz de Caminha, datada de 27 de abril de 1500. Ao descrever as casas dos tupiniquins, o escrivão da armada portuguesa relatou que dentro das habitações havia “redes atadas pelos cabos, altas, em que dormiam”. Caminha utilizou o termo “rede” pela semelhança do objeto com as redes de pesca conhecidas pelos portugueses.

Entre os povos originários, o objeto possuía nomes próprios. Diversos cronistas registraram o termo “hamaca”, de origem aruaque, e a palavra “ini”, utilizada em diferentes regiões do Brasil. A partir desse vocábulo difundiram-se denominações empregadas em outras línguas, como hammock no inglês e hamac no francês.

Nas sociedades indígenas, a rede desempenhava várias funções. Servia como leito, assento e berço para crianças. Também aparecia em momentos cerimoniais. Em muitas comunidades, quando alguém morria, era enterrado envolto em sua própria rede, prática que indicava a ligação do objeto com o ciclo da vida.

Com a chegada dos colonizadores portugueses, a rede passou a integrar o cotidiano da sociedade colonial. Missionários, viajantes e exploradores reconheceram sua utilidade nas longas jornadas pelo interior do território. Bastavam dois esteios ou duas árvores para improvisar um leito seguro e confortável, circunstância que favoreceu sua ampla difusão.

Durante os séculos XVI e XVII, a técnica de fabricação foi aperfeiçoada. As mulheres das aldeias, juntamente com colonas portuguesas, passaram a produzir redes de algodão tecido em tear, mais resistentes e ornamentadas. Surgiram redes com varandas, franjas e bordados, características presentes no artesanato tradicional brasileiro, sobretudo no Nordeste.

No Brasil colonial, a rede também foi utilizada como meio de transporte. Suspensa por uma vara e carregada por escravos ou carregadores, funcionava como uma espécie de liteira, comum nas cidades coloniais e nas propriedades rurais.

No Nordeste brasileiro, sobretudo nas regiões sertanejas, a rede integrou o cotidiano das populações locais. Estava presente nas casas-grandes dos engenhos, nas moradias simples e nas jornadas de vaqueiros, tropeiros e viajantes. Enrolada entre os pertences, acompanhava os deslocamentos pelo interior e era armada nos alpendres das fazendas ou entre árvores ao longo dos caminhos.

Durante o século XIX, com a difusão das camas e a influência dos costumes europeus, o uso da rede diminuiu em algumas regiões do Brasil, especialmente no Sul e no Sudeste. Nas regiões Norte e Nordeste permaneceu amplamente utilizada.

A rede de dormir integra o conjunto de elementos culturais transmitidos pelos povos originários e incorporados à vida cotidiana brasileira ao longo dos séculos. Sua presença atravessa diferentes períodos da história e permanece associada às formas tradicionais de habitação e repouso em diversas regiões do país.

Imagem 02: Americae pars Meridionalis. Henricus Hondius, 1638

IMAGEM DA ABERTURA
Recorte do Americae Pars Meridionalis de Henricus Hondius de 1638. Na imagem, é verificável o que possivelmente é a representação iconográfica mais antiga de redes de dormir. (Felipe Vieira)

PESQUISA E TEXTO: José Tavares de Araújo Neto. Com contribuição cartográfica de Felipe Vieira.

José Tavares de Araújo Neto nasceu na cidade de Pombal/PB. É engenheiro Agrônomo e funcionário público estadual, lotado na Empresa Paraibana de Abastecimento e Serviços Agrícolas (EMPASA). Também é um destacado expoente cultural de Pombal, com uma participação efetiva e ativa nas atividades culturais da cidade.

Os seus trabalhos literários, a maioria das vezes, são publicados por meios digitais, sejam em jornais, sites, portais e afins, veiculados principalmente pelos portais liberdadepb.com.br; cariricangaço.blospot.com e blogdojoaocosta.com.br. 

Publicado em meio físico, escreveu dois trabalhos em parceria com o seu primo Verneck Abrantes de Sousa: “A Cadeia Velha de Pombal – Manifesto em Defesa do Patrimônio Histórico” e uma biografia do economista Celso Furtado, escrita especialmente para o programa da Prefeitura de Pombal “Nossa História, Nossa Gente”.

Em parceria com seu irmão Jerdivan Nóbrega de Araújo, lançou o livro “Ulysses Liberato, um Cangaceiro a serviço do Major José Inácio do Barro”, este trabalho literário proporcionou-lhe a comenda de Escritor Destaque 2023, da cidade de Pombal, sua terra natal.

Em 2025 lançou , "A Odisseia José Américo de Almeida na Revolta de Princesa", e, em 2026, “A Saga do Sargento Clementino Quelé no Encalço de Lampião e na Revolta de Princesa”. 

José Tavares de Araújo Neto ocupa a cadeira 45 na Academia de Letras de Pombal, cujo patrono é José Romero Cardoso de Araújo.

É Conselheiro do Conselho Alcino Alves Costa e do Conselho Cristino Pimentel, membro do Grupo Cariri Cangaço, Grupo Paraibano de Estudo do Cangaço (GPEC), Grupo Borborema Cangaço e sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço (SBEC).


REFERÊNCIAS:
AMERICAE PARS MERIDIONALIS. Disponível em: https://www.vintage-maps.com/en/antique-maps/america/south-america/hondius-south-america-1638::12806. Acesso em abr. de 2026.

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