A fuga da família Vieira Lins para Piranhas/AL, no contexto da Revolução do Equador em 1824 - [PARTE 1]
Série: História piranhense
[Texto atualizado em 05/11/2025 às 00h33]
“Sou monarquista, morrerei monarquista, mas nunca conspirei contra a República (…)”1
O então Senador e Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, mais conhecido como Cansanção de Sinimbu - ainda não era Visconde - título que receberia somente no final de sua carreira política por decreto de 16 de maio de 18882 pelo governo imperial pelos relevantes serviços prestados3, assinaria em 1878 dois decretos que seriam um divisor de águas para a História de Piranhas e do sertão do São Francisco: o decreto nº 6918 de 01 de junho que abriu crédito extraordinário para construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso e o decreto nº 6941 de 19 de junho que autorizava os estudos definitivos da mesma ferrovia. Sua construção durou cinco anos, entre 1878 e 1883 e ligava as cidades de Piranhas/AL a antiga e hoje submersa Jatobá/PE. Ao mesmo tempo que ligou comercialmente o baixo as partes altas do Rio São Francisco, contornando as Cachoeiras de Paulo Afonso, empregou milhares de retirantes da seca. Devido a sua atuação, em sua homenagem, uma das locomotivas recebeu seu sobrenome e foi batizada de “Sinimbu” - Nº 3034, assim como uma das oito estações, a Estação Sinimbu5, no km 70, inaugurada em 02/08/1882.
Na imagem 2 acima, composição estacionada na antiga Rua do Progresso (atual Av. Castelo Branco), Delmiro Gouveia/AL, em algum momento dos anos 1960.
Na imagem 3, trabalhadores da Rede Ferroviária do Nordeste (E.F.P.A) posam junto a locomotiva Sinimbu, estacionada próximo a Estação de Piranhas, durante dia de reparo. Acervo Luiz Ruben F. de A. Bonfim.
Na imagem 4, patrimônio cultural ferroviário, infelizmente abandonado pelos órgãos públicos. Na ocasião da foto (e consta que assim continua), vem sendo descaracterizado e é usado como moradia. Na imagem 5, detalhe do nome da Estação Sinimbú, no atual povoado de mesmo nome, pertencente ao município de Delmiro Gouveia/AL. Na sede do município, também fica localizado outra estação desta ferrovia, a Estação Pedra, hoje preservada como Museu Regional Delmiro Gouveia.
Menções mais antigas a Cansanção de Sinimbu, também são encontradas em um dos vapores da então Cia. Baiana de Navegação, o vapor Valéria Sinimbu6. Segundo Sampaio (2006) entrou em operação em 1859 e naufragou em 1874 na província de Alagoas. Ele fazia a Linha do Norte, atendendo as principais cidades costeiras: Salvador; Espírito Santo (atual Indiaroba/SE); São Cristóvão; Aracaju; Penedo e Maceió.
O Valéria Sinimbu, fez parte da esquadra imperial que acompanhou a visita do Imperador Dom Pedro II no Baixo São Francisco, quando o monarca passou por essa região em outubro de 18597.
Encontrei menções posteriores como “vapor Sinimbu” (sem o Valéria) em 18818, 18849 e 188710, este fazendo a Linha do Rio São Francisco de Penedo até Piranhas/AL, o que indica que provavelmente se tratou de outro navio diferente do naufragado em 1874. Outro navio, outra linha, mas que tinha a intenção de homenagear a mesma pessoa. Encontramos a confirmação no Jornal O Orbe de 21/05/1879, edição 35, transcrevendo noticia do Jornal do Penedo, noticiava a compra na Europa do Vapor Sinimbu que aportara em 06/05/1879 em Penedo. O segundo vapor também sofreu acidente, em 24 de maio de 1890, o Jornal do Penedo publica em sua edição 19 na coluna Noticiário, que o vapor Sinimbu bateu numa pedra e veio a pique abaixo de Piranhas (p. 1 – 3ª coluna), o mesmo jornal do Penedo noticia em 21/06/1890 na edição 23 que o Vapor Sinimbu aportava em Penedo após ser recuperado do acidente em Piranhas.
Na icônica foto acima, Ignácio F. Mendo, retratou o Porto de Piranhas, mostrando da esquerda para a direita os vapores Jequitaya e Sinimbu. A Biblioteca Nacional data a imagem em 1880 e mostrava o avanço dos trabalhos da EFPA. Possível verificar à esquerda da parte central da imagem, o corte em rocha para a passagem da linha, local onde estão situados atualmente o Clube Social e Auditório Miguel Arcanjo e Pousada Porto de Piranhas. Ao centro e a direita da imagem, o que provavelmente eram os milhares de dormentes que viriam a ser empregados sob os trilhos.
Essas foram algumas das homenagens a Cansanção de Sinimbu já conhecidas na região relacionada a sua atuação política enquanto Presidente da Província da Bahia entre (1856-1858) e enquanto era Senador e Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas entre (1878-1880).
Quem foi Cansanção de Sinimbu?
Em pesquisa para este texto, verifiquei que não há consenso entre sua única biografia conhecida e livros, jornais e artigos da internet sobre a família Vieira Lins: divergem nos nomes da árvore genealógica; cargos; profissões; datas e dados históricos. Tentei fazer um apanhado em fontes confiáveis, reunindo informações esparsas e apresentando outras inéditas.
Cansanção de Sinimbu foi jornalista, político, magistrado e diplomata, nasceu no Engenho Sinimbu em São Miguel dos Campos/AL (há época do seu nascimento em 20/11/1810 ainda pertencia a Capitania de Pernambuco) e faleceu no Rio de Janeiro em 22/12/190611. Bacharel em direito pela Faculdade de Direito de Olinda, formou-se em 1835. Em junho de 1836 partiu em Grand Tour pela Europa, fez cursos, conheceu vários países, doutorou in utroque iure pela universidade de Jena em 03 de setembro de 1837, retornando em janeiro de 1839 ao Brasil.
No período que esteve em Olinda, atuou como jornalista no O Olindense (1831); fundou o Eco d’Olinda (1831-1832); atuou no O Equinoxial (1832-1833) e redigiu sozinho O Velho Pernambucano (1833-1836).
Segundo COSTA (1937), foi eleito Deputado por Alagoas, enquanto ainda estava na Europa para a 4ª legislatura12 (1838-1841). Iniciando com este mandato sua vida política que perduraria até a proclamação da república.
Consta que atuou como magistrado na comarca de Chapada na província do Maranhão (nomeado por decreto de 2 de dezembro de 1845), removido depois para Porto Imperial em Goias e por último removido novamente para Cantagalo no Rio de Janeiro, atuando neste último, de maio de 1848 a novembro de 1852. Também foi Chefe da Polícia de Corte, nomeado por decreto de 05 de outubro de 185513.
Documento 1: Sinimbu atuou no O Olindense. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.
Seus pais eram o Capitão de Ordenanças Manoel Vieira Dantas e dona Ana Maria José Lins. O pai, de “antiga família sertaneja sanfranciscana” (COSTA, 1937, p. 23), guardem essa informação. A mãe, de família descendentes na linha paterna de holandeses, nascida em Porto Calvo. Foram seus irmãos: Manoel Duarte Ferreira Ferro (primogênito e futuro barão de Jequiá), Francisco Frederico Vieira da Rocha14, Inácio de Barros Vieira Cajueiro15 (Bacharel em direito e deputado por Alagoas na 5ª legislatura entre 01/01/1843 a 24/05/1844) e Anna Luísa Vieira de Sinimbu (baronesa consorte de Atalaia). Foi sua esposa a inglesa Valéria Tourner Vogeler, que conheceu no período que esteva na Europa, casaram em 1846 e tiveram quatro filhos: Clélia, Inácio (faleceu com 3 anos e 5 meses16), Maria Valéria e João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu Júnior, este último, consta que também foi bacharel em direito e deputado por Alagoas na 19ª legislatura17 em 1885.
Imagens 8 e 9 acima, explicam a origem dos sobrenomes Cajueiro, Ferro e Sinimbu.
Cansanção de Sinimbu, “foi homem polido, trajava-se com apuro e distinção. Muito estudado, viajado, falava e escrevia inglês, francês, alemão e italiano. Foi exímio conhecedor do latim” (NETO, 1986, p. 1298).
Nos conta Costa (1937, p. 77) que na câmara, “não era um frequentador assíduo da tribuna, preferindo trabalhar nas comissões que fazia parte”, mas quando a ocupava, sua eloquência gerava problemas para a transcrição de suas falas: “(…) a taquigrafia da câmara deixou-nos a prova da fluência oratória de Sinimbu, consignando a impossibilidade de reproduzir textualmente o discurso, intercalando a nota: - “Não podemos apanhar, pela rapidez com que fala o nobre orador” (COSTA, 1937, p. 80).
Chamavam-no de gentlaman, e o era, realmente, desde o elegante e irrepreensível comedimento de vestuário à fidalga severidade de maneiras. Nunca ninguém lhe viu um desalinho no traje, nem lhe ouviu uma expressão de descortesia pessoal. Mas era assim sem afetação, por educação, por temperamento. (COSTA, 1937, p. 68-69)
Poucos membros restarão da velha casa. Paranaguá e Sinimbu carregam o peso dos anos com muita facilidade e graça, o que ainda mais admira em Sinimbu, que suponho mais idoso. Ouvi falar a este bastantes vezes; não apaixonava o debate, mas era simples, claro, interessante, e, fisicamente, não perdia a linha. Esta geração conhece a firmeza daquele homem político, que mais tarde foi presidente do Conselho e teve de lutar com oposições grandes. Um incidente dos últimos anos mostrará bem a natureza dele. Saindo da Câmara dos Deputados para a Secretaria da Agricultura, com o Visconde de Ouro Preto, colega de gabinete, eram seguidos por enorme multidão de gente em assuada. O carro parou em frente à secretaria; os dous apearam-se e pararam alguns instantes, voltados para a multidão, que continuava a bradar e apupar, e então vi bem a diferença dos dois temperamentos. Ouro Preto fitava-a com a cabeça erguida e certo gesto de repto; Sinimbu parecia apenas mostrar ao colega um trecho de muro, indiferente. Tal era o homem que conheci no Senado. (ASSIS, 1898, p. 257).
Quadro 1. Cronologia de mandatos, cargos e profissões. Elaborado por Felipe Vieira.
Cansanção de Sinimbu se torna Senador em 1858. Presidiu o Senado na 16ª legislatura entre 1877-1878. Uma curiosidade sobre o mandado de Senador do Brasil Império, era que o mesmo era vitalício18. Sinimbu, só teria seu mandato interrompido em virtude da Proclamação da República em 1889. Dentre os políticos do Brasil Império, foi o que faleceu com idade mais avançada, 96 anos.


O uso da vestimenta do Senador, imagem 11, era regulamentada pelo Decreto nº 266, de 19 de Janeiro de 1843.
Dos 222 homens que ocuparam cargos de ministros entre 1822 a 1889, Sinimbu, ocupou sete vezes, ficando empatado em 7º, entre outros que mais vezes ocupou o cargo de ministro, ver quadro 2. Também está entre os que mais vezes governou diferentes províncias, quatro vezes no total, ver quadro 1.
Quadro 2. Vezes que ocupou ministérios. Elaborado por Felipe Vieira.
Cansanção de Sinimbu foi Conselheiro de Estado no 3º Conselho de Estado, função que ocupou de acordo com as atas do conselho analisadas de 02/03/1860 a 01/02/1889 (29 anos), vem daí a origem do nome de como também ficaria conhecido na política, Conselheiro Sinimbu.
O 3º Conselho de Estado era um colegiado vitalício de 12 membros ordinários. O 3º Conselho "surgiu como um instrumento de auxílio, um recurso legal, que pudesse ajudar o jovem monarca a cumprir suas funções não só executivas, para as quais tinha a assistência dos ministros, mas sobretudo suas tarefas de chefe do Poder Moderador." (SENADO FEDERAL, 1973, p. 94). Seus conselheiros, de acordo com a lei 234 de 23 de novembro de 1841, tinham como atribuições:
"Art. 7º Incumbe ao Conselho de Estado consultar em todos os negocios, em que o Imperador Houver por bem ouvi-lo, para resolvê-los; e principalmente:
1º Em todas as occasiões, em que o Imperador se propuzer exercer qualquer das attribuições do Poder Moderador, indicadas no artigo cento e um da Constituição19.
2º Sobre declaração de guerra, ajustes de paz, e negociações com as Nações estrangeiras.
3º Sobre questões de presas, e indemnisações.
4º Sobre conflictos de jurisdicção entre as Autoridades Administrativas, e entre estas, e as Judiciarias.
5º Sobre abusos das Autoridades Ecclesiasticas.
6º Sobre Decretos, Regulamentos, e Instrucções para a boa execução das Leis, e sobre Propostas, que o Poder Executivo tenha de apresentar á Assembléa Geral."
"A criação do Conselho de Estado esteve ancorada na tradição dos conselhos reais das monarquias europeias do Antigo Regime, tendo sido adotado no Brasil na conjuntura do processo de independência." (CABRAL, 2014).
Ao todo, existiram três colegiados que funcionaram no Brasil entre 1822 e 1889: O Primeiro Conselho de Procuradores (1822–1823); Segundo Conselho de Estado (1823–1834) e o Terceiro Conselho de Estado (1842-1889).
Sinimbu também foi Presidente do Conselho de Ministros (27ª gabinete), cargo que no Brasil Império era equivalente ao de Primeiro Ministro20. Nesse período, o presidente do conselho nomeava todos os ocupantes dos ministérios, Almeida (2014) nos informa que:
De acordo com a Constituição de 1824, em seu artigo 101, cabia ao imperador, no exercício do Poder Moderador, nomear todos os ministros do gabinete. A partir de 1847, o soberano passava a designar somente o presidente do Conselho de Ministros, que deveria organizar o seu gabinete. Na prática, esta foi a grande mudança ocorrida após a criação do cargo de presidente; a transferência da prerrogativa do imperador de nomear e demitir livremente os ministros de Estado para as mãos de um dos ministros, que seria o responsável pela convocação de outros nomes para compor o ministério. (ALMEIDA, 2014, grifo nosso)
Os dados do quadro 1 indicam que ele chegou a acumular simultaneamente por curto período enquanto esteve presidente do conselho, os ministérios: Fazenda (de 05-01-1878 a 13-02-1878); Agricultura, Comércio e Obras Públicas (de 05-01-1878 a 27-03-1880); Estrangeiros (de 08-02-1879 a 03-06-1879) e Ministério da Guerra (de 06-10-1879 a 09-10-1879).
Em resumo, Cansanção de Sinimbu foi, um dos políticos mais longevos, influentes, respeitados e poderosos do Brasil Império.
ACOMPANHE A CONTINUAÇÃO NA PARTE 2, NA PRÓXIMA POSTAGEM DO BLOG EM BREVE...
NOTAS
[1]. COSTA (1937, p. 302).
[2]. SILVA (2003, p. 580).
[3]. https://cultura.saomigueldoscampos.al.gov.br/personalidades/visconde-de-sinimbu
[4]. Há registros fotográficos da "JATOBÁ Nº - 301" e da "ALAGOAS - Nº 302".
[5]. O local onde foi construída a Estação deu origem ao Povoado Sinimbu, nos dias atuais, pertencente ao município de Delmiro Gouveia/AL.
[6]. Nome da esposa e uma das filhas de Cansanção de Sinimbu.
[7]. MEMÓRIAS (1861, p. 65).
[8]. Jornal do Penedo, ed. 07 de 26/02/1881.
[9]. Jornal o Trabalho, ed. 112 de 30/08/1884.
[10]. Jornal o Trabalho, ed. 698 de 23/01/1897.
[11]. Seu único biografo, Craveiro Costa, informa que teria sido dia 21. Mas, cruzando outras fontes chegamos ao dia correto de 22/12/1906. Confirmam: o Anuário do Museu Imperial de 1949, coloca o dia da morte em 22/12. O Jornal do Commercio (RJ) edição nº 357 de 23/12/1906 informa falecimento dia 22/12 às 16h e enterro dia 23/12 às 16h a edição nº 359 de 25/12/1906, informa entre os sepultados no Cemitério São João Batista do dia 22/12.
Outras fontes oficiais colocam erroneamente como dia 27/12. Ver (PROGRAMA, 2025).
[12]. Craveiro Costa cita como sendo 3ª legislatura, no entanto não há registros desse período. COSTA (1937, p. 49)
[13]. SISSON (1861, p. 95-96).
[14]. A principal biografia de Visconde de Sinimbu de Craveiro Costa, cita o nome completo de apenas do seu irmão Manoel, que em outras fontes está grafado como Manuel. No livro São Miguel dos Campo: seu rio e sua história de Antônio Valentim, consta seu nome como Frederico da Rocha Vieira em outras fontes está como Francisco Frederico da Rocha Vieira. Usamos os dados da bibliografia mais recente de ALMEIDA (2021, p. 156).
[15]. FIRMO, João Sereno; OCTACIANO, Nogueira. (1973, p. 111).
[16]. VALETIM (2014, p. 324)
[17]. Legislatura – Período de funcionamento do Poder Legislativo com duração de quatro anos que vai da posse dos parlamentares, no dia 1º de fevereiro do ano seguinte à eleição parlamentar, até a posse dos eleitos na eleição subsequente.
[18]. BRASIL (1824).
[19]. Idem.
[20]. WESTIN; FONTENELLE; PAGANINE (2019, p. 30).

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